
Hoje comemora-se o Dia Mundial da Vida Selvagem! Esta efeméride levou-nos até à Sónia Duarte, bióloga e dirigente no agrupamento 510 Cacilhas, que nos guiou por uma viagem ao mundo dos insetos, sobre os quais ainda existe muito por descobrir!
Flor de Lis: Fala-nos um pouco sobre ti.
Sónia Duarte: Sou escuteira desde 1988 no Agrupamento 510 de Cacilhas, tendo passado por todas as secções, e chefe desde 2007, tendo passado como chefe por todas as secções exceto os lobitos. Já tive diversos cargos em agrupamento, incluindo chefe de agrupamento. Desde 2019 faço parte do DNA, e tem sido um desafio muito dinâmico e que gosto bastante. Em termos profissionais sou bióloga, especializada no controlo integrado de pragas de insetos, ou seja, em estratégias que sejam mais amigas do ambiente e não se baseiem apenas no uso de pesticidas para controlar pragas de insetos. Trabalho de momento com agentes de degradação biológica de madeiras e outros materiais de origem natural, que é como quem diz, térmitas, carunchos e fungos. A interligação entre o escutismo e a biologia surgiu muito do meu gosto pela natureza desde pequena.
Flor de Lis: Quantas espécies de insetos estão atualmente identificadas no Mundo e em Portugal?
Sónia Duarte: Essas estimativas são efetuadas sempre muito por alto, pois existe um elevado nível de desconhecimento da fauna de insetos em geral. Principalmente os menos “bonitos” e chamativos e os de menores dimensões. A fatia que ainda está por descobrir é bastante maior do que o que já se conhece. Infelizmente a ciência que trata da identificação de espécies (taxonomia) está em crise, pois há pouco investimento nesse tipo de investigação fundamental. Temos cada vez menos taxonomistas, em Portugal e no mundo. Mas falando em números aproximados e estimativas, existem cerca de 1 milhão de espécies de insetos descritas no mundo, e os entomólogos (cientistas que estudam os insetos) acreditam que estão por descrever entre 5 a 30 vezes mais espécies. O que temos a certeza é que os insetos representam 80% das espécies animais descritas. No nosso país, a equipa que fez o Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal (livro que lista as espécies de insetos ameaçados) estimou em 200 mil o número de espécies de insetos. Quanto a abundância, os insetos também são impressionantes: por exemplo, estima-se que existam cerca de 2,5 milhões de formigas por pessoa à face da terra!
Flor de Lis: Qual a importância dos insetos no ecossistema?
Sónia Duarte: Ao serem o grupo mais numeroso de animais na terra, e terem uma capacidade de se adaptar a condições extremas, eles estão um pouco por todo o lado e têm diversos papéis a nível de ecossistemas. São importantes nas cadeias alimentares, servindo de base da alimentação de muitos animais, são polinizadores, permitindo a reprodução das flores (e os frutos, sem os insetos os nossos mercados seriam muito pobres e pouco diversificados), como agentes de dispersão de sementes de plantas, como decompositores de matéria orgânica, como reguladores naturais de espécies que se transformam em pragas para os humanos. Alguns são até considerados como verdadeiros engenheiros de ecossistemas, de tal forma alteram as condições dos ecossistemas, como por exemplo as térmitas.
Flor de Lis: Na tua opinião, quais os insetos mais interessantes de estudar?
Sónia Duarte: Essa é uma pergunta difícil! Para mim todos são interessantes. Pessoalmente interessa-me o controlo integrado das chamadas pragas, ou seja, investigar estratégias que nos permitam uma convivência mais pacífica com os insetos, de preferência atuando a nível da prevenção. As pragas são circunstanciais (o que é aqui é considerado uma praga pode não ser noutro local do mundo), é um conceito por vezes subjetivo. E surgem por conflito connosco, ou porque competem por alimento (seja em campos agrícolas ou locais de armazenamento de alimentos), por matérias-primas (por exemplo as térmitas podem consumir estruturas de madeira e comprometer a segurança estrutural de edifícios de madeira, que é o seu alimento de eleição), ou vetores de doenças de animais e humanos, como os mosquitos. Infelizmente, estamos mais formatados a lidar com estas pragas através da utilização de pesticidas, com consequências negativas para o ambiente e para nós próprios, mas na realidade podemos investigar e desenvolver inúmeras estratégias próprias para cada espécie, que não envolvam pesticidas. Um exemplo é a utilização de inimigos naturais (que podem ser outro inseto, que se alimenta da praga) em campos agrícolas. Uma área muito importante também é a comunicação de ciência, pois só gostamos do que conhecemos, e os insetos não são propriamente o grupo de animais mais popular na sociedade, é necessário que quem trabalha nesta área possa ir desmistificando e dando a conhecer este grupo tão importante de animais. Podia escrever páginas e páginas de áreas interessantes dentro da entomologia e não me cansar, mas na realidade para mim os insetos mais interessantes são as térmitas, que estudei no meu doutoramento, extremamente importantes nos ecossistemas naturais e muito destrutivas em termos de infraestruturas de madeira.
Flor de Lis: Que curiosidades nos podes contar-nos sobre os insetos, que não sejam normalmente de senso comum?
Sónia Duarte: Existem muitas, há insetos que têm capacidades de aprendizagem, podemos até treinar esses insetos, como por exemplo as abelhas. Existem insetos que se transformam em autênticos zombies quando infetados por fungos ou bactérias, que podem alterar completamente o seu comportamento e modo de reprodução. Uma pergunta comum é se os insetos dormem, mas normalmente o que eles têm é um estado de quiescência, pois como não regulam a sua temperatura corporal, quando está muito frio não se mexem. Surgiram há cerca de 400 milhões de anos, e foram dos primeiros a colonizar o ambiente terrestre, passaram por diversas extinções em massa sem grandes mossas, e houve um grande aumento das espécies de insetos quando as plantas também se diversificaram, pois, muitas espécies evoluíram em conjunto com elas. Como dizia o meu professor de Entomologia na faculdade, e grande responsável por ter seguido esta área (Professor José Quartau) “os insetos, tal como os anjos, ganharam asas sem perder outros membros”.
Flor de Lis: Como é que um escuteiro quando vai acampar pode ajudar a preservar o ecossistema dos insetos?
Sónia Duarte: É importante seguir os princípios de boas práticas em campo (Leave no Trace, por exemplo: https://ambiente.escutismo.pt/leave-no-trace/). Não devemos destruir a vegetação, principalmente em flor, que constitui um recurso alimentar importante para os insetos. Atividades de reflorestação (incluindo árvores e espécies arbustivas), com plantas autóctones, ou seja, que façam parte da vegetação natural da zona, são importantes. Mesmo perto da sede, se puderem, podem ter uma pequena horta de plantas ornamentais ou até agrícolas. Em breve o DNA irá lançar um programa dirigido à proteção de insetos polinizadores, para proporcionar alimento e abrigo aos polinizadores, já que enfrentamos uma crise em termos da sua biodiversidade e abundância. Se quiserem trazer algo dos acampamentos e atividades apostem em fotos e boas memórias, evitem trazer elementos naturais que mais cedo ou mais tarde irão descartar, mas que no seu ambiente natural podem até ser um abrigo para algumas espécies de inseto. Não os matem a menos que seja uma questão de necessidade extrema, mesmo o mais insignificante mosquito poderá servir de alimento a um morcego, por exemplo.
Flor de Lis: Que cuidados devemos ter em atividade?
Sónia Duarte: Primeiro que tudo temos de ter conhecimento dos desafios que a fauna de insetos da zona para que vamos nos apresenta, nomeadamente se é uma área povoada de mosquitos. E nesse caso irmos preparados, fechar bem as tendas e sacudir o calçado antes de fardar, se ficar ao ar livre, evitar usar luzes à noite também ajuda a não atrair insetos inoportunos. Existem poucos insetos perigosos para a nossa saúde em Portugal, e normalmente eles até preferem ficar longe de nós. Se não querem partilhar o espaço com formigas na tenda, mantenham comida longe da tenda e fechem-na muito bem, se dormirem em abrigos, podem pendurar a vossa comida numa árvore com sisal e passar um pouco de repelente no sisal (zona próxima da comida), isto num local sombreado, claro. As abelhas e abelhões não costumam ser agressivos a menos que nós nos tornemos uma ameaça para eles (e às vezes nem percebemos porquê), portanto, o melhor é afastamos deles ou observar à distância. Mais chatas são as vespas, nomeadamente as invasoras como a vespa asiática, que têm comportamentos mais agressivos. Se virem ninhos desta vespa devem ser sinalizados às autoridades (vejam mais informações no site https://stopvespa.icnf.pt/) e mantenham-se longe delas, evitando comportamentos de pânico. Informem-se e deem formação aos vossos elementos de como agir em caso de picadas de insetos. É importante estimular a curiosidade dos nossos elementos quanto a insetos (será sempre muito mais fácil mostrar insetos do que mamíferos, por exemplo, dos quais vemos com facilidade dejetos e pegadas mas raramente o animal em si). O simples gesto de chamarmos para verem um inseto fora do comum pode mudar a atitude de medo para com os insetos que nos é ensinada desde pequenos pela sociedade. Existem até aplicações que podem ajudar a identificar o que estamos a ver, como o iNaturalist (que ainda serve de plataforma de ciência cidadã), não precisam ser especialistas. Podem-se fazer atividades muito giras como caça noturna a insetos, com um lençol branco e lanternas, ou usando um copo próprio para capturar insetos de dia e observar para depois os devolver à natureza intactos. Por vezes também nos podemos cruzar com escaravelhos quando remexemos a terra, e lembro-me de ter vários exploradores cheios de medo destes escaravelhos que depois de me verem com um na mão e eu lhes descrever o número de patas, para que serviam as antenas, e que provavelmente tinham uma família ali perto, já vinham eles próprios chamar-me e trazer-me escaravelhos e as suas larvas para eu ver.
Entrevista: Cláudia Xavier
Fotografias: Sónia Duarte, Patrícia Rodrigues, Raquel Vaz, Daniela Casimiro

Vem fazer voluntariado internacional na Irlanda!
Larch Hill está à procura de cinco voluntários para a temporada de verão (2 de junho a 29 de agosto)!

Inscrições abertas para o I Encontro Caminho Ibérico
Nos dias 10 e 11 de maio, o Centro Nacional de Atividades Escutistas de Idanha-a-Nova irá receber o I Encontro Caminho Ibérico, uma iniciativa conjunta entre o CNE e a associação espanhola Movimiento Scout Católico (MSC).

Encontro Ibérico de Guias irá juntar escuteiros portugueses e espanhóis em maio
O Centro Nacional de Atividades Escutistas, em Idanha-a-Nova, será o ponto de encontro para escuteiros ibéricos entre 10 e 11 de maio para trabalharem o tema da proteção de crianças e jovens.

CNE presente em encontro de Assistentes e Animadores Espirituais da CICE
Decorreu entre 9 e 12 de março um encontro de Assistentes e Animadores Espirituais na Eslováquia promovido pela região europeia da CICE e CICG.