O tema central da conferência, “Fia-te nos algoritmos e não vivas… Desafios Humanos na era da IA: um debate urgente”, desafiou os participantes a refletirem sobre as oportunidades e riscos desta tecnologia em diferentes domínios da vida humana.
O escutismo esteve representado neste evento, acompanhando as discussões sobre o papel da IA e as suas implicações para a educação, o trabalho, a ética e a espiritualidade.
A tecnologia e os seus desafios: O que não estamos a ver?
A primeira conferência, intitulada “MiopIA: O que não estamos a ver bem?”, foi conduzida pelo Dr. Hugo Silva e por Martim Silva, que apresentaram uma visão otimista sobre a evolução da tecnologia e o seu impacto positivo na sociedade. Destacaram que a IA não deve ser encarada como uma ameaça, mas sim como uma superpotência capaz de impulsionar o progresso humano.
Foi reforçado que a IA permite a automatização de tarefas, a melhoria na tomada de decisões e a personalização de serviços, trazendo benefícios concretos para diferentes áreas, desde a saúde à educação. Uma das frases que marcaram a conferência foi:
“AI is not a job. It’s a superpower.”
A ideia central da conferência foi clara:
“Olhar para a IA como um princípio e não como um fim.”
No escutismo, esta perspetiva levanta uma reflexão importante: como aproveitar a IA para otimizar processos, sem que ela substitua as experiências fundamentais do movimento, como o contacto com a natureza, o trabalho em equipa e o desenvolvimento humano integral?
IA e a liberdade de escolha: O que nos resta e o que nos espera?
A segunda conferência, intitulada “No mundo da IA: O que nos resta e o que nos espera?”, foi conduzida pelo Professor Paulo Novais, da Universidade do Minho. A palestra trouxe uma abordagem reflexiva sobre os desafios que a IA impõe à sociedade, destacando a necessidade de um equilíbrio entre inovação tecnológica e a capacidade humana de tomar decisões conscientes.
Uma das ideias centrais exploradas foi a tensão entre o progresso tecnológico e a preservação dos valores humanos, sintetizada na frase:
“O conforto do velho e a arrogância do novo: desafios de um mundo.”
O professor destacou que a IA pode automatizar processos e facilitar a vida, mas cabe às pessoas decidir como e quando usá-la. A tecnologia não deve substituir o pensamento crítico, a criatividade ou a ética, mas sim funcionar como um instrumento para a tomada de decisões. Como foi afirmado durante a conferência:
“A IA faz o trabalho bruto, mas somos nós que escolhemos o caminho.”
Outro ponto importante abordado foi o problema do excesso de informação (information overload). A era digital trouxe um fluxo massivo de dados, tornando difícil distinguir o essencial do irrelevante. Quando somos bombardeados com informação, o nosso cérebro tem dificuldade em processar e filtrar o que realmente importa.
Este desafio é especialmente relevante para os jovens, que crescem num mundo saturado de estímulos digitais. No escutismo, onde se valoriza a observação, a reflexão e a tomada de decisões informadas, surge a questão: como ensinar as novas gerações a filtrar a informação e a pensar de forma crítica?
O professor Paulo Novais também abordou a atual cultura social, afirmando:
“Estamos numa cultura que valoriza o sucesso e pune o insucesso.”
Neste contexto, a IA pode agravar essa tendência ao criar métricas rígidas para avaliar desempenho e comportamentos. A pressão para sermos sempre produtivos e eficientes pode levar à desumanização das relações e à perda da capacidade de aprender com os erros.
Por fim, foi deixada uma questão essencial para reflexão:
“Como podemos garantir que o ‘mundo novo’ não seja inevitável, mas sim desejável?”
O escutismo, enquanto movimento que valoriza o crescimento pessoal através da experiência e da superação de desafios, pode desempenhar um papel essencial neste equilíbrio. A tecnologia deve ser uma aliada, mas não pode substituir o contacto humano, a experiência vivida e os valores que constroem uma sociedade melhor.
Senhores ou servos da IA?
O Pe. Afonso Seixas-Nunes, professor da Universidade de Saint Louis (EUA), trouxe uma perspetiva ética e filosófica, questionando se a sociedade está a dominar a IA ou se está a tornar-se dependente dela “Senhores ou servos da IA: Considerações sobre o campo de batalha e desafios da IA.”
Destacou-se a necessidade de encontrar um equilíbrio entre o uso da IA e a responsabilidade humana, reforçando que a tecnologia deve ser vista como um meio e não como um fim. Embora a IA possa otimizar tarefas e facilitar processos, não pode substituir a criatividade, o discernimento e a espiritualidade humana. No escutismo, onde o contacto com a natureza, o trabalho em equipa e o desenvolvimento pessoal são fundamentais, é essencial garantir que a tecnologia não afasta as novas gerações destas experiências transformadoras.
IA na Saúde, Educação e Justiça
O primeiro painel abordou os impactos da IA nestes setores, destacando tanto as oportunidades como os desafios éticos. Na saúde, a IA tem revolucionado o diagnóstico e tratamento, permitindo análises mais rápidas e precisas, mas levantando preocupações sobre privacidade e dependência tecnológica. No ensino, a personalização do aprendizado por IA pode beneficiar os alunos, mas o contacto humano continua essencial. Já na justiça, o uso de algoritmos para apoiar decisões judiciais levanta questões sobre transparência e possíveis preconceitos nos sistemas automatizados. O painel concluiu que, embora a IA traga avanços significativos, a sua utilização deve ser sempre pautada por responsabilidade e valores humanos.
IA nas Artes, na Pastoral e na Teologia
O segundo painel debateu o impacto da IA na criatividade, na fé e na comunicação. No campo das artes, discutiu-se se um algoritmo pode realmente ser criativo ou se apenas reproduz padrões existentes. Já na teologia e na pastoral, questionou-se se a tecnologia pode substituir a experiência de fé e a dimensão humana da espiritualidade. Apesar do potencial da IA para auxiliar na evangelização e na difusão cultural, o painel reforçou que a vivência da fé e a criação artística são essencialmente humanas e não devem ser reduzidas a processos algorítmicos.
O Escutismo na Era Digital
A conferência CNAL 2025 destacou a importância de um uso consciente e responsável da IA, reforçando que esta tecnologia deve servir o ser humano e não o contrário.
O escutismo, enquanto movimento educativo, tem um papel essencial nesta era digital: formar jovens críticos, autónomos e conscientes, capazes de utilizar a tecnologia sem perder a ligação com os valores humanos, a natureza e a comunidade.
A IA pode ajudar, mas nunca substituir o essencial da experiência humana.
O Escutismo ensina-nos a pensar por nós próprios.
E essa é uma capacidade que nem os melhores algoritmos podem replicar.