«Eu ando aqui há muitos anos, esta casa é a minha segunda casa!»

O Chefe Luís Barbosa tem 94 anos, dos quais 84 de escutismo. O Chefe Barbosa é Dirigente do agrupamento nº1 Sé de Braga e é uma inspiração para toda a associação, com uma vida repleta de histórias que valem a pena ler. Fica a conhecer o Chefe Barbosa, que é atualmente o escuteiro mais antigo do CNE.

Como surgiu o Escutismo na sua vida?

Entrei para o CNE, morava aqui na Cruz de Pedra, brincávamos aqui no campo das hortas. Uns rapazes, vieram aqui parar e começaram a arranjar rapazes para virem para os escuteiros, – naquele tempo haviam poucos. Isto em 1938, e não havia muita “escuteirada”… O Escutismo tinha meia dúzia de anos. Portanto, nunca havia muita coisa, lá vim eu para aqui. Eu fiquei sem pai aos quatro anos e a minha mãe era um sargento, andava ali muito direitinho, a minha mãe teve 20 filhos, eu fui o número 20. Qualquer passo que desse tinha de contar à minha mãe. Vim assistir a uma reunião, gostei e tal, e cheguei a casa e disse à minha mãe:  «Oh, mãe, olhe fui aos escuteiros, é ali na Cónega.» Ela pelos vistos naquela altura nem conhecia, o escutismo tinha 15 ano e disse que eu não ia para escuteiro. Foi então informar-se sobre o que era o Escutismo e disseram-lhe que era bom, e deu-me autorização. Vim então naquela altura para júnior. Não havia agrupamentos nem nada… Aqui estava agrupado o grupo 1 (que eram juniores naquele tempo) e o grupo 3, que foi depois para S. Vitor. E o grupo 3 até naquela altura tinha menos gente e mandaram-nos para o grupo 3, depois passado pouco tempo puseram isto direito e nós passámos para o grupo 1.

Como aprendeu o que era o Escutismo?

Tínhamos poucos chefes, haviam aqui uns rapazes mais velhos, que agora seriam Caminheiros, mas naquele tempo eram Seniores, e lá começámos a aprender Escutismo, a lei, os princípios, a promessa, para depois saber interpretar os artigos da lei para depois fazer a promessa. Um dos chefes que era do grupo 3, o Chefe Magalhães que na altura era chefe regional, foi o segundo Chefe Regional do CNE. (…) A partir daí lá se começou o Escutismo, aprendemos tudo… Construções, agora não tenho a certeza mas acho que fazem menos, já levam as coisas feitas. Mas o Escutismo tem que ser de pau e corda! O Osório dizia isso, o escutismo se perder o pau e a corda já não é um verdadeiro Escutismo.

Como viveu o Escutismo ao longo da sua vida?

Houve uma altura em que dei menos ao Escutismo porque estava a preparar a minha vida, comecei a preparar uma vida futura, depois de estar livre da tropa (…). Com 20 anos tinha aprendido um modo de vida com um irmão, que era concertar máquinas de escrever. Eu gostava de ser torneiro mecânico, e tinha um irmão, esse mais velho que eu 26 anos, era encarregado de uma fundição que havia aqui onde é agora, em frente ao mercado municipal. Haviam ali umas lojas que abriram uma oficina e eu queria ir para torneiro e ele arranjou para me meter lá (…) mas não gostava daquilo era um trabalho muito pesado, eu era um rapaz com 12 anos, andava na escola comercial no 1º ano… O meu irmão como sabia que eu já concertava muito bem as máquinas de escrever, disse: «Ganhas mais comigo do que ganhas na oficina», eu na oficina ganhava 16 tostões por dia, era um escudo e 60 centavos, ele trabalhava em casa. (…) Lá conferenciei com a minha mãe, a minha mãe é que nos dava os conselhos: «Se tu gostas do modo de vida, e se já mexes muito bem nas máquinas, vai trabalhar com o teu irmão». Fiquei apurado para a tropa, mas tinha um cunhado que era sargento enfermeiro e na altura na corporação havia um excesso de contingente, e por excesso mandaram uns poucos embora. Ele conseguiu meter-me a mim nesse excesso de contingente e já não fui à tropa (…). Aos 21 tinha que escolher a minha vida para o futuro, disse então ao meu irmão «Olha, tu trabalhas para ti e eu trabalho para mim». Entretanto o meu irmão tinha casado e levou a oficina para a casa dele: «Também tens direito de trabalhar para ti, e olha quando eu tiver muito que fazer também te dou que fazer a ti.» Comecei então a trabalhar por minha conta e tinha o tempo mais ocupado, não podia dar tanto ao Escutismo como dei até ali. Mas pronto, o Escutismo também naquela altura já havia agrupamentos, e aqui o agrupamento teve quatro secções, aliás ainda não era agrupamento, era as secções que trabalhavam: Eram os lobitos, o grupo 1, e havia o grupo lá em cima D. Manuel Vieira de Matos, e depois em frente eram os Seniores. E era assim que trabalhava o escutismo em Braga. Depois começaram a fazer o Escutismo em freguesias, e então os que o padre indicasse para serem dirigentes vinham para aqui para os seniores. Daqui é que saiam os Seniores para as freguesias todas.

Faziam a formação aqui?

A formação era o Escutismo, era o que se ia fazendo. Aqueles que melhor entrassem nas coisas eram os guias de patrulha, depois o guia escolhia o sub-guia. Eu estava na patrulha tigre – ainda hoje tenho simpatia pelo tigre porque fui da patrulha tigre e cheguei a ser guia da patrulha tigre – aquilo lá continuou e é como eu digo: Dava pouco ao Escutismo, depois ainda fui para os Seniores e ,quando se deu isso de me separar do meu irmão, eu já estava nos Seniores, depois disse ao chefe, que era o chefe Palha: «Oh, chefe, eu agora não posso dar muito ao escutismo porque estou agora a lançar a minha vida» e foi assim que ele me disse «O dever do escuta começa em casa”. E lancei-me à vida. Mas quando podia era convidado para muitas coisas do CNE e eu isso aparecia sempre, na minha vida o escutismo estava sempre metido.

E a vida continuou…

Comecei a criar os meus filhos e os meus filhos até chegaram à idade de serem escuteiros, e eles disseram: “- Oh pai tens que olhar mais pelo agrupamento, que aquilo está para lá uma bandalheira!”. (…) Eles faziam um acampamento de férias em Fão, no Ofir, naqueles montes. Eu fui lá e chego lá, já não via o material há muito tempo, e disse “- Isto tá uma bandalheira! Estas tendas são do tempo que eu era rapaz!”. Não gostei daquilo e disse ao rapaz que estava à frente daquilo “- Nós temos que comprar tendas”! e ele responde “- O agrupamento não tem dinheiro! “ “- Arranja-se! Tens que deitar uma mão a isto” disse-lhe. Eu tinha a mania dos sorteios, na altura os sorteios davam muito dinheiro! (…) A malta de manhã nas missas das freguesias corria as missas todas. E arranjámos dinheiro para comprar material de campismo novo, as panelas estavam todas estragadas…  Fizemos um acampamento de férias esse ano em que já usámos o material novo. Não sei quem é que foi lá que disse: “- Que linda cidade de lona!” E diz-lhe assim um fulano de lado “- Olha, se não fosse o Barbosa não havia esta cidade de lona!”. Assim comecei a organizar e depois havia aqui uns caminheiros, o meu filho acho que já era caminheiro nessa altura e ajudava-me muito, não tínhamos dirigentes… Era só a minha filha que era Aquelá, e eu é que tinha as secções todas, trabalhei com as secções todas quase ao mesmo tempo. Depois comecei a preparar os rapazes, os caminheiros, aqueles que tinham jeito, para dirigentes… Lá os fui preparando.

(…) Depois a coisa começou a organizar-se e isto começou a ir para a frente! Houve uma altura, depois do 25 de Abril, em que começaram a existir eleições e então eu fiz uma eleição aqui no agrupamento, convocada por mim, (…) em que pensei: «Quem tem que vir para aqui tem que ser o chefe da altura», «Oh, Alfredo tu é que és o chefe de agrupamento do agrupamento 1, eu vou fazer a eleição e vou meter-te a ti como chefe de agrupamento.» O Alfredo veio e tomou conta da chefia do agrupamento e eu nessa altura era chefe de núcleo (…) e chefe da II secção.

Entretanto o Veloso já era meu adjunto, entretanto ficou ele como chefe de secção. E isto lá foi rolando, o agrupamento começou a ficar bom, os que iam crescendo já não queriam sair, já ficavam como dirigentes e hoje temos 20 e tal dirigentes. É por isso que eu digo que aqui sou um auxiliar, porque há 12 anos que não tenho muito tempo para isto. Mas venho a reuniões de direção, momentos importantes (…). E pronto, é isto o escutismo.

Quais são atualmente as suas funções no agrupamento?

O que é que eu faço agora aqui? Sou um conselheiro daquilo que estão a fazer e dou a minha opinião. Quer eles pensam a opinião ou não peçam, se eu vir que precisam estou logo aqui e eles aceitam. Havendo uma diferença tão grande de idade eles podiam não aceitar, mas não. Depois também tem uma coisa: BP disse que o bom dirigente do escutismo deve descer à idade dos seus inferiores. Portanto, se eu estiver numa Alcateia eu tenho que (…) ir para a idade dos lobitos para eles me aceitarem. Esta foi uma opinião de Baden-Powell. E foi este o meu princípio do Escutismo.

Então a sua função aqui é quase como um conselheiro, um irmão mais velho dos dirigentes?

Sim, sem dúvida! E depois eu quando estou muito ocupado, mesmo no telemóvel recebo no email o que se passa aqui. (…) Eu ando aqui há muitos anos, esta casa é minha segunda casa!

Quais é que são as melhores recordações que tem do Escutismo?

A melhor recordação que eu tenho da minha vida de escuteiro foi o 7º acampamento nacional, já não faziam acampamentos há uns anos (…) porque estiveram suspensos, fizeram um acampamento em Tomar (…). Eu fui a esse acampamento, aquilo foi 5 estrelas! Nós só fazíamos aqui os acampamentos de grupo e depois havia os acampamentos regionais (…), mas o 7º em Tomar tinha sido o melhor até aquela altura. Depois houve um aqui no Bom Jesus e começaram a ser cada vez melhores, agora os acampamentos nem tenho palavras para lhe dar!  (…)

Acha que isto agora tem muitas diferenças para o seu tempo?

Isto agora é muito evoluído, tem os cursos… Nós tínhamos um curso que fazíamos para ser chefe de escuteiros, já era no campo escola. Fazíamos aquele curso com o Padre Manuel Faria (Dr. Faria) – O campo escola foi o Padre Manuel Faria (Dr. Faria) que conseguiu praticamente fazer, era o sonho dele. Os cursos também, ele era um escuteiro de se lhe tirar o chapéu… E até foi ele que esteve sempre à frente do campo escola, e mereceu! Então naquele tempo era o Padre Manuel Faria (Dr. Faria) que os dava, e foi ele que começou a trabalhar para os formadores.

Na sua opinião, o que é que acha do trabalho que tem sido desenvolvido no CNE?

Sempre melhor, há sempre umas quezílias, mas são mais fáceis de resolver do que naquele tempo quando fui chefe de núcleo. É que fui chefe de núcleo já depois do 25 de abril, o pessoal tinha mais liberdade. Por exemplo, quando fiz a minha promessa, que foi nos Congregados, foi com desfile daqui até lá. Naquele tempo não havia fanfarras, era a banda de música das oficinas de São José, que também era um agrupamento de escuteiros, eles da música fizeram um agrupamento de escuteiros. Quando era precisa música havia música, e lá vinham a tocar a Radiosa por aqui acima. E nós a marcarmos passo, era militarizado.  Depois do 25 de abril isto deixou a parte da militarização e, como tudo, veio a democracia, a liberdade … O Escutismo cresceu com mais liberdade. Nós também tínhamos a Mocidade Portuguesa, que nós na escola éramos obrigados a ser filiados… Eu tinha a farda de escuteiro e a farda da mocidade. O que mais me custou na minha vida foi vestir a farda da mocidade, mas se eu dissesse isso na altura…

No próximo ano fazemos 100 anos de história. O que significam para si estes 100 anos de CNE?

Para mim os 100 anos do CNE são uma alegria porque naquele tempo que vim para escuteiro, muita gente não julgava que isto ia evoluir como evoluiu. Se essas pessoas desse tempo se fossem vivas! (risos) Quando foi o 25 de abril (…) e íamos para uma festa qualquer, íamos sempre a marcar passo por aí fora. Depois vínhamos em desfile e o povo vinha ver, e uns fulanos diziam “-Esta tropa ainda não acabou?” Eu respondia-lhes “- Esta tropa nunca acaba!” Depois disseram que eu como vinha a marcar passo não podia falar (…) Eu não podia ouvir falar mal do Escutismo, era novo naquele tempo! Era um rapazito…

Qual é a mensagem que gostaria de deixar às crianças e jovens do CNE?

Eu gostava de deixar a seguinte mensagem aos futuros, ou aqueles que nunca pensaram em ser escuteiros (…): Se experimentarem em serem verdadeiros escuteiros poderão chegar à minha idade como escuteiros!

Texto e fotografia: Dep. Comunicação de Braga e Cláudia Xavier

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