
Portugal presente na All Groups Meeting (AGM) da Região Europeia
Entre as montanhas de Kandersteg e o espírito internacional que caracteriza o Escutismo,
Toda esta aventura começou no final de setembro de 2025, quando cada um de nós se candidatou a uma atividade que era descrita como: “10 dias, 200 km, muitas histórias e total autonomia”.
O Explorer Belt é uma atividade internacional destinada a elementos da IV Secção e candidatos a dirigente que querem chegar mais além num plano internacional.
Esta atividade desafia os participantes a viver uma experiência de autonomia, superação e descoberta intercultural. Em duplas, durante 10 dias, os participantes percorrem cerca de 200 km a pé num país estrangeiro, gerindo autonomamente o percurso, o orçamento e as decisões do dia a dia, enquanto contactam diretamente com a cultura e a população locais.
Pouco depois das candidaturas serem submetidas, tivemos o primeiro fim de semana que nos colocou em contacto direto com a atividade. Aqui, diversos antigos participantes deram-nos o seu testemunho, transmitindo-nos a sua experiência nas edições anteriores, as histórias mais marcantes e os momentos mais memoráveis. O fim de semana inicial passou, mas a ânsia de saber como seria o próximo não era fácil de ocultar. A, na altura, apenas ideia de testar os limites rumo ao desconhecido começava a aproximar-se da realidade.
O segundo fim de semana já foi feito em duplas. Aqui, cada dupla teria de estar em total autonomia durante um curto espaço de tempo e, depois de dois dias cheios de histórias, chegaríamos ao destino final. Houve momentos de partilha individual entre as diversas duplas e a Equipa de Suporte, que ouvia, com paciência e atenção, as nossas dificuldades, conquistas e descobertas. Tivemos momentos de partilha à volta da fogueira, onde todos os participantes contavam as histórias das últimas 48 horas e onde todos pensávamos no que poderia vir a acontecer em 10 dias.
O momento decisivo estava quase a chegar. Ansiávamos todos por um email. Um email que nos ia dizer se tínhamos conseguido, ou não, ser um dos sortudos escolhidos. Esse email chegou a uma quinta-feira, a meio da tarde. Tínhamos conseguido. Nesta edição do Explorer Belt, acabaríamos por ser treze duplas e uma tripla, todos com o mesmo objetivo: descobrir a Roménia, superar desafios e crescer através de uma experiência em autonomia.
Recebemos uma data-limite até à qual teríamos de fazer um fim de semana de preparação. Aqui, cada grupo definiu um local à escolha para o início e um local de chegada, tendo de alcançar um mínimo de 40 km no total. Apesar dos diversos checks diários com a Equipa de Suporte, a presença de um contacto de emergência que se encontrasse por perto, dentro do possível, era essencial. Chegar à Roménia inteiros e de boa saúde era parte do plano.
Por ter coincidido com uma época mais fria do ano, as temperaturas baixas, as camadas extra de roupa, as botas molhadas e os materiais de dormida mais grossos faziam parte da lista de material de qualquer envolvido nos diversos fins de semana de preparação que se realizaram de norte a sul do país. Estávamos cada vez mais perto da Roménia. Só faltava um projeto, uma época de exames (para aqueles que estudam), um voo e dois dias.
O projeto, apesar de muitos poderem achar o contrário, é uma das partes mais essenciais da atividade que é o Explorer Belt. Ter um projeto com objetivos concretos permite a cada dupla dar um significado mais pessoal aos dez dias de aventura. Apesar de todas as duplas partirem com o mesmo grande objetivo de descobrir a Roménia e superar os desafios da atividade, cada uma teria a oportunidade de definir aquilo que pretendia procurar, conhecer ou alcançar ao longo do caminho. O projeto torna-se, assim, uma forma de transformar os quilómetros percorridos numa experiência com um propósito próprio.
Ao estabelecer objetivos, em dupla, teríamos também de tomar decisões em conjunto, organizar-nos, dividir tarefas independentemente dos gostos e encontrar soluções para os obstáculos que fossem surgindo. A autonomia estava a deixar de estar apenas relacionada com a capacidade de chegar ao destino e começava a estar relacionada com a responsabilidade de decidir como e para quê queríamos viver a experiência. Nem tudo ia correr necessariamente como planeado, mas a flexibilidade também faz parte da atividade; saber quando parar ou quando alterar algo podia definir o nosso sucesso naquele dia.
O projeto também nos incentiva a olhar para a Roménia de uma forma mais atenta, permitindo-nos conhecer pessoas, culturas, tradições e realidades diferentes daquelas a que estamos habituados, de uma forma que talvez, sem um projeto que nos guiasse, pudéssemos ter deixado mais de parte. Cada conversa, descoberta ou dificuldade contribui para atingir os objetivos definidos e, ao mesmo tempo, ensinar-nos algo novo.
Durante os dias 15 a 17 de abril foram apresentados os projetos das diversas duplas. Todos os participantes partilhámos, em conjunto com a nossa dupla, o que viria a ser aquilo que nos moveria na Roménia naqueles dias em que as bolhas dos pés seriam mais marcantes do que o entusiasmo. A Equipa de Suporte serviu como guia e apoio nesta fase, expondo situações que talvez necessitassem de mais profundidade ou questionando como planeávamos fazer acontecer certas situações.
Especialmente nesta parte, era importante ter alguém com “cabeça, tronco e membros” que, com experiência prática, nos conseguisse aconselhar e situar dentro do que viria a ser o Explorer Belt. Este momento também foi palco para diversas conversas, gargalhadas e debates sobre o que tinham sido os diversos fins de semana de preparação. Apesar de cada dupla ter andado no seu cantinho de Portugal e ter vivido experiências diferentes, havia algo que nos unia: as famílias, as refeições, as histórias e os sorrisos que tinham preenchido os nossos diversos 40 km de uma forma tão marcante e especial. Até agora, estava a ser uma experiência fascinante e cheia de aprendizagens, mas a parte mais enriquecedora estava por vir.
A inscrição no SIIE e a compra dos voos foram os momentos em que nos caiu a ficha acerca da atividade. Ia mesmo acontecer, e estava mesmo quase. Começaram as preparações: informar a Equipa de Suporte dos horários, decidir por onde é que íamos passar, imprimir os mapas, escolher sabiamente o material que íamos levar dentro da mochila, garantir que as colchonetes insufláveis não tinham buracos (dormir desconfortavelmente não era uma opção), escolher as botas certas e ponderar se levávamos mais um par de sapatos…
O verão ia passando e a data aproximava-se. Depois de um tempo de espera, chegou o dia. A partir dos aeroportos de Lisboa e do Porto, viajámos em direção a Bucareste, os 29 participantes. Uns iam mais cedo e outros mais tarde. Diversas duplas acabaram por se encontrar no aeroporto e coincidir em voos, o que tornou a experiência mais divertida e permitiu que pudéssemos partilhar o nosso entusiasmo. Chegar ao Centro dos Escuteiros da Roménia foi toda uma experiência: as pessoas olhavam para nós, confusas, e nós só queríamos descobrir qual era a paragem do autocarro.
Uma vez lá, encontrámo-nos com todas as outras duplas e com a Equipa de Suporte. Bombardeámos um escuteiro romeno com perguntas variadas sobre o escutismo na Roménia, ursos e que estradas seriam mais ou menos seguras… Foi aí que aprendemos que os ursos, por norma, não representam uma ameaça para as pessoas, mas os cães podiam vir a ser um problema. Pelos vistos, há um número elevado de cães abandonados e de cães pastores que não gostam muito de pessoas dentro do seu território. Acabámos o dia com duches à vez, um jantar nada típico romeno e uma reunião onde recebemos instruções para o dia seguinte.
Último dia antes de começar a caminhada. A Equipa de Suporte deu 300 lei às duplas para, durante o dia, poderem fazer os recados necessários para o início da expedição. Como fazer as compras era a parte mais rápida, a maior parte de nós entreteve-se a fazer turismo por Bucareste. Entre as igrejas, bibliotecas, edifícios municipais e monumentos históricos, foi um dia preenchido. Até encontrámos uma loja de pastéis de nata que eram bastante bons.
Chegou a hora das compras e fazê-las em romeno foi mais complicado do que o previsto. Havia muitas opções que não conseguíamos diferenciar devido à barreira linguística, mas, depois de darmos o nosso melhor e de termos tudo aquilo de que precisaríamos, tínhamos as compras feitas com sucesso.
Depois de vários quilómetros e de diversas interações curiosas pelas ruas da capital do país que nos viria a acolher durante 10 dias, voltámos ao centro escutista. Um jantar, umas gargalhadas, uma reunião para saber como seria o amanhã, mais uns banhos à vez, e fomos dormir. Amanhã era o dia em que começava a expedição.
Ao longo da manhã do dia 10 de agosto, as diversas duplas e a tripla recebemos um spray para ursos, dinheiro e um envelope. Fomos saindo do centro e começando a deslocar-nos até ao local de início das nossas jornadas. Desde os comboios entre montanhas espampanantes aos autocarros entre as vilas mais rurais da Roménia, todos os grupos chegaram ao destino inicial. Alguns tivemos de andar uns quilómetros para conseguir um sítio onde passar a noite, outros nem tanto. O dia 0 estava a chegar ao final e todos tivemos a sorte de ter um sítio onde descansar e repor forças para o dia seguinte.
A jornada tinha começado. O misto de emoções era real: o entusiasmo pela aventura, o receio do desconhecido, o medo dos ursos e a vontade de explorar o mundo juntavam-se numa sensação de euforia digna de quem é jovem e está a viver o que podem vir a ser uns dos melhores 10 dias da nossa existência.
Era o primeiro dia. A palavra quilómetro ainda era nossa amiga e as bolhas nos pés não passavam de uma ideia distante. Entre ajustes das alças das mochilas para distribuir bem o peso, parar para tirar pedrinhas inconvenientes das botas, pôr protetor solar, beber água com eletrólitos sabor a limão, cumprimentar vacas durante o caminho e dizer “buna ziua”, o primeiro dia fez-se com sucesso.
Todos encontrámos um sítio para dormir, longe dos possíveis inconvenientes da noite. Já em contacto com as populações mais rurais da Roménia, começámos a perceber que os ursos eram uma possibilidade real e não apenas um possível inconveniente. As famílias, sempre preocupadas, explicavam-nos como reagir e evitar os encontros:
Para além da vivência com as pessoas, tínhamos a nossa própria experiência dentro da dupla ou tripla. Os dias, o cansaço acumulado, as bolhas que começavam a dizer olá e os quilos da mochila, que pareciam aumentar, começavam a fazer-se notar.
Somos diferentes na forma de comunicar, pensar e enfrentar os desafios, mas aprendemos a complementar-nos. Houve momentos em que um precisava de mais força e o outro estava lá para a dar. Aprendemos a ouvir, negociar, confiar e avançar juntos. Num percurso de dez dias e cerca de 200 quilómetros, em que cada decisão tem de ser tomada pela própria dupla, estas diferenças tornam-se particularmente importantes. Nem sempre duas pessoas vão olhar para uma situação da mesma forma, ter a mesma solução em mente ou reagir da mesma maneira perante uma dificuldade. No entanto, é precisamente essa diversidade que permite encontrar diferentes perspetivas e soluções.
Houve momentos em que foi necessário parar, ouvir uma opinião diferente e perceber que a melhor decisão não era necessariamente a primeira que nos ocorria. Aprendemos a ouvir o outro para além do cansaço e a confiar na pessoa que nos acompanha. A autonomia não significava fazer tudo sozinho, mas saber contar com a pessoa que estava ao nosso lado e reconhecer que ambos tinham um papel fundamental no caminho.
Ao longo da atividade, fomos percebendo que uma dupla não se constrói apenas por duas pessoas caminharem lado a lado. Constrói-se através da capacidade de dividir responsabilidades, apoiar quando necessário, respeitar ritmos diferentes e tomar decisões em conjunto. Pequenas tarefas, escolhas de percurso, momentos de cansaço ou situações inesperadas tornavam-se oportunidades para perceber como funcionávamos enquanto equipa. No final, o objetivo não era que um se adaptasse constantemente ao outro, mas que ambos encontrassem uma forma de avançar que lhes permitisse chegar mais longe juntos.
Os dias passavam e as palavras do início eram cada vez mais verdade: os cães eram uma ameaça. Diversos grupos tivemos problemas com cães, mas, graças à experiência e às palavras dos locais, conseguíamos lidar com eles sem deixar um bocado de perna na Roménia. Descer as mochilas até às pernas e continuar a andar era, pelos vistos, um plano infalível. Nestas situações, agradecíamos ainda mais por todas as pessoas que tinham cruzado o nosso caminho e que nos tinham dado conselhos, truques e conforto.
O final estava ao virar da esquina. O entusiasmo do início já tinha por cima a dor das bolhas e o que era “só mais um quilómetro” começava a transformar-se num “deixa fazer uma pausa”. Mas Nocrich estava mesmo ali, depois de uma curva com um sinal de trânsito que nunca ninguém tinha visto: um triângulo com uma bola preta no meio, que, pelos vistos, indica um ponto crítico de concentração de acidentes.
Era dia 21. Os 200 km já estavam feitos. Tínhamos chegado ao final do percurso que tanto nos tinha dado e ensinado. Pensar que teríamos um sítio fixo e que no dia seguinte não andaríamos mais ou menos 20 km era surreal. É nestes momentos que aprendemos a apreciar o que é bom e que nem todos têm.
Os dias seguintes foram de descanso, reuniões em duplas ou tripla com a Equipa de Suporte para partilhar as nossas experiências, dificuldades e conquistas. No último dia, fomos até Sibiu, onde fizemos turismo e aproveitámos uma refeição tradicional romena.
No dia 24, já com saudades de casa e da comida dos nossos pais, regressámos a Portugal com um aperto no peito. Tínhamos deixado um bocadinho de nós na Roménia e em todas as pessoas que, sem nós percebermos, nos deram tanto.
O Explorer Belt mostrou-nos que não existe apenas um caminho para chegar ao mesmo lugar. Existem caminhos diferentes, pessoas diferentes e experiências diferentes, mas o espírito, a autonomia e a superação são aquilo que nos une.
A Roménia ficou para trás. Os caminhos foram diferentes, mas o objetivo foi o mesmo. E as histórias ficaram connosco.
Um obrigada à Equipa de Suporte, que fez isto possível, aos pais e agrupamentos que nos apoiaram e a todas as famílias que, num país que não era nosso, nos acolheram como se de lá fôssemos.
Texto: Casilda Maugé Ramos, 1117- Setúbal, Margarida Gama 160 – Castelo Branco
Fotografias: Equipa Explorer Belt

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