Sol a Sol: Construir por Dentro, Reconstruir por Fora

Dizem que a Drave é a aldeia do «quase nada», mas quem lá pisa sabe que é onde encontramos quase tudo. Este ano, o Sol a Sol desafiou-nos a viver sob o lema «Construir por dentro, reconstruir por fora», num imaginário ancorado na espiritualidade. Através de sete símbolos, que unem os quatro elementos à Santíssima Trindade, cada dia conduziu a uma reflexão profunda sobre o papel de cada participante, sobre a vivência em comunidade e a entrega ao próximo.

No seu lado mais visível, o Sol a Sol ganha forma na força dos braços e no ritmo das ferramentas: nas lousas, no bondex, aparafusadoras, ondulinas, placas OSB e em tantos outros materiais. Faz-se do som que ecoa no vale, do suor sob o calor intenso e de quem aprende a trabalhar sem esperar outra recompensa.

Foi com essa entrega que, além de pequenas reparações no centro, avançámos na reconstrução do telhado da Casa do
Staff, iniciámos a requalificação do altar no Anfiteatro e melhorámos a nossa Oficina. Mas a verdadeira estrutura do DRSC não se ergue apenas em pedra ou madeira: é feita de pessoas, empatia, amizade, bondade e amor. É na entreajuda que descobrimos que, ao reconstruir a aldeia, edificamos a nossa arquitetura interior.

O Sol a Sol 2026 ficou marcado com a imprevisibilidade da meteorologia. Por precaução, perante o risco de incêndios, a atividade teve de ser interrompida mais cedo. A notícia caiu com peso: para quem ansiava e sonhava com esta semana há meses, ou até anos, a desilusão de ver o momento interrompido foi dura.

Contudo, foi precisamente aí que se revelou a verdadeira essência desta atividade. O espírito de serviço não se extingue perante os escolhos; adapta-se. Garantida a segurança de todos, a equipa e os participantes souberam transformar o desgosto numa demonstração gigante de resiliência e fraternidade.

A nossa profunda gratidão à Proteção Civil e aos Bombeiros por todo o esforço no terreno. Um agradecimento especial e sentido ao Agr. 605 Carvalhais, que nos abriu as portas e o coração com uma generosidade ímpar enquanto aguardávamos orientações. Ali, provámos que a Drave não é apenas uma geografia, mas um estado de espírito.

E no final… mesmo com a partida antecipada, sobra aquele silêncio reconfortante. Ao relembrar o repousar do vale, sabemos que cada segundo valeu a pena. Deixámos ali um pedaço de nós e levamos connosco algo que não cabe na mochila: a certeza de que a casa que erguemos por dentro permanece intocável.

Texto: Inês Martins

Fotografias: Drave Rover Scout Centre

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