«Têm no Escutismo uma oportunidade de crescerem, aprenderem e viverem em sociedade»

Augusto Canário é bem conhecido da música popular portuguesa. No entanto, antes de iniciar o seu percurso pela música, percorreu outro caminho: o do Escutismo.

Conte-nos um pouco do seu percurso no Escutismo.

Depois de sair do Seminário dos Carmelitas Descalços, em Viana do Castelo, a minha cidade, em 1975, ingressei no CNE (Agr. 452), para a patrulha Cisne, do Grupo 92, de Vila Nova de Anha, como Explorador. A minha entrada coincidiu com a realização de uma promessa. Assim, tive de esperar pela promessa seguinte. Entretanto, atingi a idade de 18 anos e a minha primeira promessa foi de Caminheiro, Equipa São Francisco de Assis, Clã n.º 1. Fiz todo o percurso de Caminheiro com amigos que ainda hoje conservo e, naturalmente, cheguei a Dirigente.

Entretanto, o Agr. 453 passou por momentos de pouca atividade. No início dos anos 80, teve início uma nova etapa do agrupamento. Uma nova chama impeliu a atividade de muitos novos escuteiros. Nessa altura assumi responsabilidades de Dirigente da II Secção – Grupo Júnior – com muito entusiasmo, resultado de ter feito o CAP – Insígnia de Madeira, no Campo-Escola de Fraião. Tive oportunidade de aprender com grandes Dirigentes do CNE, muitos já desaparecidos. Destaco, entre outros, Carlos Alberto, Manuel Faria, Padre Américo, Manuel Domingos.

Foram alguns anos maravilhosos de trabalho com os jovens Exploradores, com atividades muito diversificadas, no campo, na sede e na comunidade. Ainda hoje tenho excelentes amigos que ficaram desse período da minha vida. Em 1981 constituí família, depois de um período de namoro. Referir que a minha esposa, Maria da Conceição, era Akelá no mesmo agrupamento de Vila Nova de Anha. Do casamento nasceram duas filhas. Em 1982, encontrei um emprego muito estável. Por volta dos anos 1984/85, iniciei atividade musical muito importante. Todos estes fatores tiveram muita importância para que eu deixasse de ser Dirigente, tal como a minha esposa, também ela ligada à atividade musical. Foi um ciclo que se encerrou na nossa vida. No entanto, mantive sempre uma ligação aos escuteiros, pois os amigos próximos assim o propiciavam.

Uma nova etapa seria iniciada no CNE com a inclusão das minhas filhas na Alcateia 92. Atualmente, uma das minhas filhas exerce funções destacadas no CNE, quer a nível local quer a nível regional, e os meus cinco netos, nascidos e crescidos em família de escutas, estão todos integrados nas várias secções do Agr. 453.

Eu, não estando em atividade há já muitos anos, sempre que é necessário vou colaborando consoante tenho possibilidades e disponibilidades.

Escuteiro uma vez… Escuteiro para toda a vida!

Qual a influência que o Escutismo teve na sua vida?

Posso dividir em várias fases a importante influência que o Escutismo teve na minha vida.

Enquanto adolescente, permitiu-me aprender a trabalhar e agir em grupo. Permitiu-me aprender a respeitar as pessoas, os animais e a respeitar e a usufruir a Natureza com equilíbrio e responsabilidade. Os princípios do Escutismo, indicados por Baden-Powell, já iam no sentido de preservar a Natureza, respeitar os seres humanos e sermos delicados e generosos com o outro, cultivando espírito são em corpo são.

Numa segunda fase, enquanto jovem/adulto, o Escutismo possibilitou-me conhecer novos amigos e pessoas muito importantes para mim. Ali conheci a minha namorada, alguns anos mais tarde, minha esposa. Digamos que, no Escutismo, constituímos a nossa família. Enquanto Dirigente, permitiu-me obter formação pessoal – Insígnia de Madeira – deveras importante, quer para a atividade escutista, enquanto formador de jovens, mas também para o desempenho da minha profissão, ligada à educação especial.

Na sua opinião, sente que o Escutismo trouxe alguma mudança para o seu dia a dia?

Obviamente que sim.

De uma forma geral, os valores da cidadania, da ecologia, do respeito pela Natureza, do culto espiritual e do respeito pelo outro, da solidariedade e da participação comunitária, são desenvolvidos no Escutismo, por forma a que cada elemento seja um cidadão melhor. Assim sendo, eu sou, por certo, uma pessoa diferente e marcada por essas aprendizagens e por esses valores. Se eu não tivesse frequentado o CNE e os seus preceitos, não posso dizer que seria pior ou melhor pessoa, mas não seria por certo a pessoa que sou hoje.

A nossa qualidade de cidadania vê-se nos pequenos gestos do dia a dia. Desde logo, no preceito da «boa ação», através de pequenos gestos de cortesia com os mais velhos, com as crianças, na condução na estrada; pelo respeito e proteção dos animais, da Natureza e do ambiente.

No próximo ano o CNE celebra o centenário. Cem anos de histórias para contar, de crianças e jovens que passaram pela associação. Recorda-se de alguma história interessante que tenha vivido no CNE e que possa partilhar connosco?

É muito difícil destacar uma de entre tantos episódios que vivenciei nos escuteiros, desde o tempo de pata-tenra explorador até chegar a Dirigente.

No entanto, posso destacar um momento que me emocionava sempre. Quando participava num acampamento, numa formação de vários dias, numa atividade coletiva, não conseguia evitar uma sensação de tristeza e de saudade quando chegava ao fim. Era inevitável a minha reação emocionada e de recusa em terminar o evento.

Mais tarde, aprendi a fazer desses momentos pontos de partida para futuros encontros e novas partilhas.

Ainda hoje tento ensinar essa forma de estar aos meus netos e a outras crianças com quem tenho oportunidade de trabalhar.

«O Escutismo (...) pode desempenhar um importante papel na formação integral dos jovens»

 

Atualmente é reconhecido pelo trabalho que desenvolve. Neste sentido, que conselho gostaria de deixar aos jovens escuteiros?

Na minha perspetiva, nunca os jovens tiveram tantas oportunidades para escolherem os seus caminhos de vida. Obviamente que, as vivências familiares são fundamentais para as opções que possam ter. Mais que pelas palavras, pelas ações.

Nos meus tempos de juventude, não tínhamos os recursos económicos e tecnológicos que temos atualmente.

A escola não tinha o importante papel que tem nos nossos dias, na formação da juventude. Para o bem e para o mal, até pela obrigatoriedade de a frequentar durante muitos anos, na escola há imensas possibilidades de realizar e aprender coisas que antes não existiam. Em quase todas as áreas de formação de uma pessoa, física, intelectual, social, a escola é, hoje em dia, fundamental. E ainda bem que assim é.

O Escutismo, noutros tempos, colmatava lacunas formativas e educativas que as famílias e a própria escola evidenciava.

O Escutismo, mantendo completamente atualizados os seus valores e princípios fundamentais, pode desempenhar um importante papel na formação integral dos jovens.

Apesar da sua importância, por este ou aquele motivo, escapa à escola a oportunidade de “fazer bons cidadãos”. São mais que conhecidos os problemas e atritos entre jovens e adultos nas escolas. São testemunhados e divulgados os atos agressivos e de bullying entre jovens. São mais que conhecidos os problemas sociais de algumas escolas e a comunidade onde se inserem.

A mensagem que deixo a todos – jovens escuteiros e não escuteiros – é que têm no Escutismo uma oportunidade de crescerem, aprenderem e viverem em sociedade. 

No caso do CNE, continua a ser uma “Escola de Vida”, onde há oportunidade de ser, mais que ter; saber, mais que conhecer, e de “deixar o Mundo um pouco melhor que o encontramos”.

Continua, para mim, a ser a melhor e mais universal escola de juventude. 

Texto: Cláudia Xavier

Fotografias: Augusto Canário

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